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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nascido em uma família desestruturada.

Se nós pudéssemos escolher a família na qual fomos inseridos, com certeza escolheríamos uma família feliz, amorosa, unida, completa (com o pai, mãe, avós, irmãos, tios, primos), com uma situação financeira, no mínimo, estável, enfim, uma família composta, dentre outros fatores, do afetivo, do biológico e do relacional.

Mas não é assim que funciona. Aliás, será que os fatores mencionados acima definem quem uma pessoa é ou será?

Nasci na cidade de Santo André/ ABC Paulista. Minha mãe teve três filhas, eu e mais duas meninas, eu sou a do meio. Meu pai, sempre foi alcoólatra e desde que minha mãe engravidou da minha irmã mais velha ela já sofria agressões dele. Foi num contexto assim em que eu cresci, com muitas agressões verbais e físicas. Eu tinha somente uma avó (mãe do meu pai) e meu avô havia falecido devido a um câncer causado pelos vícios da bebida e do cigarro, no ano em que eu nasci.

Mas como toda criança sempre cria o seu próprio mundo, com mais cores e otimismo, eu não fui diferente. Costumava a me dedicar às atividades físicas, das quais eu me dedicaria a minha vida inteira seu eu pudesse. Como nunca tive bonecas para brincar devido a minha família ser de origem simples, sempre brincava de bola com os meninos na rua. Eu adorava!

Mais tarde, no início da minha adolescência, me tornei uma das melhores jogadores de futebol e handebol da minha escola e bairro, modéstia parte, eu era conhecida pela minha habilidade. Participava de campeonatos, corridas de bairro, lutas de judô na escola do meu vizinho que era professor e me dava aulas de graça, enfim, o esporte era a minha vida e a minha fuga.

Eu tinha alguns sonhos como: tornar-se uma jogadora profissional, me formar em Educação física, viajar para fora do Brasil e formar uma família.

Porém, a situação com o meu pai ficou ainda mais insuportável. Ele estava a cada dia mais alcoólatra e violento e não se importava com a família. Morávamos em casas invadidas e sempre nos mudávamos. Até que um dia, minhas irmãs e eu conversamos com minha mãe e pedimos para ela se divorciar do meu pai. Eu tinha 12 anos e me lembro de uma oração que eu fiz naquele dia: “Deus, se o Senhor existir mesmo, faça com que eu não chore mais todos os dias. Amém.” A partir dali as coisas ficaram um pouco melhores. Minha mãe pediu o divórcio e, pelo menos, não havia mais aquele medo de quando meu pai chegava em casa.

Aos 13 anos de idade, minha mãe disse que eu precisava trabalhar porque a nossa situação financeira estava difícil. Tive que parar com o esporte e estudar à noite. Arrumei um emprego em uma microempresa de informática onde trabalhei por cinco anos. Nessa época, comecei a freqüentar uma igreja evangélica. Foi lá onde eu passei a acreditar que o meu passado não, necessariamente, definiria o meu futuro. Foi minha base. Lá eu aprendi sobre o que era caráter, honestidade, bondade, etc.

Mais tarde, os problemas que eu enfrentaria seriam outros. Minha mãe parecia mais perdida em suas escolhas do que as três filhas juntas. Então, decidi que eu não queria mais morar com ela, porque não queria mais viver as conseqüências das atitudes e escolhas erradas dos meus pais.

Na época, eu havia conhecido um rapaz na igreja e estávamos namorando. Nós nos casamos anos depois, aos meus 19 anos. O casamento, infelizmente, só durou dois anos. Éramos muitos jovens, eu, muito sonhadora, mas ao mesmo tempo muito trabalhadora, sempre assumindo as responsabilidades da casa, ele, músico desde criança, nunca tinha um trabalho fixo por muito tempo, filho de mãe falecida e pai casado pela segunda vez em fase de separação por motivos de traição. Você deve estar pensando como isso poderia dar certo, não é?

Não sei o que foi pior, lidar com as dificuldades e conflitos de um divórcio litigioso, ter que enfrentar o julgamento das pessoas dizendo que eu não poderia quebrar uma aliança feita com Deus (algo que eu também acreditava) ou tentar não me convencer de que o meu divórcio tinha alguma relação com o histórico nada exemplar dos meus pais ou com algum trauma de infância que eu pudesse ter.

Foi quando eu repensei sobre os meus sonhos, valores, e tudo aquilo que eu queria para a minha vida.

DEUS, de alguma forma, sempre esteve comigo. Acho até, que mesmo antes de eu conhecê-lo melhor, ele já cuidava de mim e sabendo que eu passaria por tantas dificuldades, me deu uma essência boa. Hoje, eu não acho que todo o meu sofrimento deveria ter sido diferente. Eu tinha que viver tudo aquilo para que hoje eu fosse quem EU SOU. Tenho meus valores, conceitos, tenho a minha ESSÊNCIA.

Ser ou não nascido em uma família bem estruturada, definitivamente, influencia nos aspectos constitutivos, como o afetivo, o relacional, o sociológico, o econômico, o psicológico e o cultural, mas não pode definir ou determinar o que com toda VONTADE queremos SER e ALCANÇAR, a não ser que aceitemos as condições e rótulos impostos por uma sociedade preconceituosa na qual vivemos.

Viviane Brizzi